Um dos pioneiros na utilização do teletrabalho, Carlos Nepomuceno, da PontoNet Consultoria, fala sobre a utilização do teletrabalho na prática.
(WWWORK - Fevereiro/2001)
wwwork: Que tipos de serviços a PontoNet oferece?
Carlos Nepomuceno: Hoje, basicamente, estamos trabalhando com serviços de pós-site. Ou seja, secou a fonte de realizar o site dos clientes, pois o mercado ganhou muitos concorrentes e hoje não vale mais a pena competir nesta área. Nos especializamos então em tudo que vem depois que o site está no ar: reestruturação, estratégia, manutenção, conteúdo e agora, principalmente, em montar comunidades virtuais em torno daquele projeto, através de listas, boletins e outras ferramentas de interação.
wwwork: Como é ser uma das primeiras empresas a apostar num novo conceito de trabalho?
Carlos Nepomuceno: Os clientes nem notam. Operamos de forma que tudo fica transparente, todo o benefício e as dificuldades a serem superadas ficam dentro das nossas paredes. Mas quando falamos que somos uma empresa virtual o povo estranha. O pai de uma estagiária chegou a me ligar para saber onde a filha dela estava amarrando o bode ;) . Ela ficou comigo durante quase um ano, saiu e é uma das boas profissionais que o mercado tem, trabalhando durante um bom tempo como teletrabalhadora.
wwwork: Quais são as vantagens do teletrabalho, a produtividade tende a crescer com ele?
Carlos Nepomuceno: Bom, acho que trabalhar pela internet exige ao longo do tempo ferramentas para a coisa funcionar direito. Nós desenvolvemos um software que chamamos e-trabalho que nos facilita controlar todas as tarefas e pedidos dos clientes, que se encaixa muito bem para um tipo de trabalho de manutenção, estamos correndo atrás de investidores para colocar o produto no mercado. As vantagens são muitas, mas depende do ponto de vista. Nem todo mundo se adapta ao trabalho à distância. Fico em casa e controlo tudo. Não enfrento engarrafamentos, chuvas, estou mais com os filhos, me sinto como se morasse no interior, algo bem tranqüilo. Existe o problema de administrar o custo da conexão, que é o grande gasto. Faço meu horário, vou caminhar na Lagoa no meio da tarde com um amigo. Acho que tem seu charme.
wwwork: Com o teletrabalho houve uma transferência de canal e lugar no qual são feitos os negócios. A maioria dos serviços e transações podem podem ser feitas virtualmente. Que mudanças isso trouxe para o mundo dos negócios?
Carlos Nepomuceno: Bom, acho que ainda é um processo no início, mas o principal é que você pode contratar e ser contratado, independendo um pouco de onde você mora. Cai um pouco o lance do visual de cada um, uma pessoa que teria problemas, como um deficiente físico por exemplo, para se colocar no mercado. Em casa, o preconceito é menor, pois não se leva em conta estas coisas. O problema é que a idéia do teletrabalho ainda é muito recente e faltam ferramentas legais para que as pessoas possam usar mais e melhor. E ainda cultura, todos preferem ter aquele poder de ficar olhando a hora que se entra ou se sai, como se isto fosse símbolo de produção.
wwwork: E que mudanças ainda estão por vir?
Carlos Nepomuceno: Acho que as pessoas vão ficar mais exigentes em termos de trabalho, se eu posso ficar em casa, para poder sair todos os dias e ralar, eu vou querer muita coisa. Ou seja, as pessoas vão preferir ficar na sua cidade do interior. Vai ser melhor ficar em casa, só vai valer a pena deixar isso se a proposta for muito boa. As empresas vão ver que os custos com o teletrabalho são bem compensadores e acho que teremos uma verdadeira rede. Sites de leilões de gente querendo trabalhar e gente oferecendo trabalho será uma das novidades, como já aparecem por aí. Um B2B do teletrabalho.
wwwork: Acredita que as empresas - de pequeno, médio ou grande porte - tendem a tornar-se adeptas do teletrabalho?
Carlos Nepomuceno: Sim, aos poucos. É uma questão de tempo de internet, mas nem tudo será assim pois há ramos que não permitem o teletrabalho, ou seja, não podemos entrar agora nos absolutos, agora tudo vai ser pela internet - é falso. As coisas vão se estabilizando, tem gente que nunca vai acessar à rede, que não vai querer saber dela, tem empresas que não vão nunca contratar teletrabalhadores e por aí vai, mas acho que existem aquelas que chamaríamos com grande potencial, que ainda não o fazem por falta de conhecimento. Vamos fazer a campanha nos nosso veículos web para evitar cair no absoluto, nem tudo será teletrabalho no futuro, mas tem muita coisa que passará a ser.
wwwork: Quais são os primeiros passos para aqueles que desejam tornar-se teletrabalhadores?
Carlos Nepomuceno: Estar entre as profissões que se encaixam. Se o cara é mecânico de carro vai ser difícil ele consertar o carro do outro pela rede, ele pode passar a ser consultor de mecânica, mas vai mudar a profissão. Tradutores, jornalistas, programadores, redatores, revisores, quem trabalha com texto, principalmente e com a geração de arquivos, códigos, coisas assim, se encaixam bem...
wwwork: E quais são as características que eles devem ter?
Carlos Nepomuceno: Bom, acho que, antes de tudo, um micro, duas linhas de telefone, (uma para conectar e outra para falar), e saber se virar na internet. Isso é o básico. Como característica pessoal: 1- iniciativa, 2- iniciativa, 3- iniciativa. O cara que não sabe ler instruções e agir, se ferra. Ou seja, tem gente que está acostumada a receber pedidos verbais, o cara pede, ele pergunta e assim vai. Tem alguém do lado para ir guiando pela mão; Na rede, você tem que ler um texto e aprender 100% aquilo, pois você vai ter dificuldade de falar com quem pediu. Ou seja, tem que se virar! Pode ser que alguma coisa dentro do pedido não esteja bem feito, mas você tem que se basear neste texto, passar de ser um comandado por via oral a um comandado via texto. Isso muda muita coisa e tem gente que não consegue ver a ficha cair. Isto implica também que você vai passar a criar seus mecanismos para aprender sozinho, vai ter o seu grupo de apoio, sua comunidade virtual, vai resolver problemas para executar as tarefas pedidas...ou seja, o teletrabalhador é um cara que tem que ter muita iniciativa, pois ele é um cara sozinho e solitário que precisa tecer sua teia para executar o seu papel. Se ele não tem este perfil, não adianta insistir. Claro que nem todas as atividades pedem tanta iniciativa, mas o que eu sinto é que aprender a ter iniciativa é a pedra-chave para que a pessoa se dê bem neste novo mundo.