Como administrar uma pequena empresa de tecnologia no Brasil?

Trabalho a distância

Comunidades virtuais e o futuro da Internet

Vocę usa 10% da capacidade do seu computador?

 


 
 

Resenha

Ecos da Fonte: um livro-interface
Revista Inteligência Empresarial n. 25, Rio de Janeiro: Crie/Coppe/UFRJ, 2005.
Claudia Duarte

Em busca do computador invisível (Crônicas sobre tecnologia) versão 1.0 , de Carlos Nepomuceno.
Pontonet Consultoria/Armazém Digital. Preço: 20,00.
Compras pela Internet, clique aqui!

Em 1917, o artista Marcel Duchamp, sob o pseudônimo de Richard Mutt, propõe ao Salão dos Independentes de Nova York a exposição de uma peça que intitulou Fonte. Trata-se de um mictório comprado numa loja de materiais de construção, na base do qual o artista havia acrescentado a assinatura “Richard Mutt”. O objeto é recusado pela comissão julgadora, da qual Duchamp é um dos integrantes, e no momento da recusa do trabalho ele anuncia sua saída do cargo.

Fonte foi um dos trabalhos para os quais Duchamp inventou o termo “readymade”, produtos industriais retirados da sua função utilitária e alçados à categoria de objetos de arte. Estes objetos escolhidos meio ao acaso, que põem em questão o que é uma obra de arte e o que é um objeto utilitário, são exemplos da produção artística do início do século passado, momento em que a arte moderna examina os limites da arte e da obra, os formatos dos seus produtos, as linguagens empregadas na sua criação, quem é o artista, quem é o espectador.

Pode-se achar à primeira leitura que este texto é um comentário sobre a arte no século XX. Na verdade é um comentário sobre Em busca do computador invisível (Crônicas sobre tecnologia) versão 1.0, de Carlos Nepomuceno. Esta abertura se relaciona com o livro porque este é exatamente um livro que, sem explicitá-lo, coloca em questão o objeto livro.

Do mesmo modo como o readymade de Duchamp expande a idéia de obra de arte, Em busca do computador invisível expande a idéia que se tem de um livro. E também o que se espera que façamos com um livro. E ainda, a maneira como costumamos normalmente ler um livro.

Como o título diz, Em busca do computador invisível (Crônicas sobre tecnologia) versão 1.0, apresenta crônicas sobre tecnologias digitais. São textos cujos temas vão desde os problemas destas tecnologias, a necessidade de se adaptarem aos seres humanos a ponto de se tornarem invisíveis, até as soluções que nos trazem, como a possibilidade de reatarmos o contato com pessoas que há muito tempo não vemos, as delícias de trabalharmos remotamente sem precisarmos sair de casa, as facilidades de publicar conteúdo online sem precisar de muitos recursos.

Os assuntos das crônicas justificam em parte porque Em busca do computador invisível é um livro que, sem explicitar esta intenção, se vira ao avesso, se explica como livro: é um meta-livro, que nos ajuda a pensar também seu formato de publicação.

Como se pode publicar uma obra sobre tecnologias digitais num formato que começou a ser popularizado por Gutemberg no século XIV? Não seria mais simples fazer uma publicação online? Porque imprimir um livro neste caso?

Mas o que aos poucos se percebe é que o formato impresso faz justamente transparecer as questões dos formatos digitais. Como a Fonte de Duchamp se distancia da obra de arte convencional para pensar a obra de arte contemporânea, o distanciamento destes textos do monitor do computador nos permite pensar a publicação online ou eletrônica para entender seus problemas e soluções.

O livro já começa subvertendo a idéia de livro logo depois da folha de rosto, dando a palavra aos leitores, “O que dizem os leitores” anuncia: quem lê é tão importante quanto quem escreve. Só depois vem a apresentação do autor, e depois a vem explicação do seu formato, do seu processo de edição e impressão sob demanda, a explicação do conceito de livro-coletânea, com tiragem reduzida, adaptável ao tipo de público, gradualmente atualizável, com artigos categorizados em “Conceituais”, “Artigos conceituais com poucos links” ou “Artigos mais práticos”.

Outro aspecto “subversivo” deste livro são as pesquisas de opinião ao final de cada artigo, que devem ser respondidas via internet. Embora fique esclarecido que não têm caráter científico, procuram mostrar aos leitores um reflexo deles mesmos, ou do seu posicionamento em relação a diferentes aspectos da cultura digital. Os leitores, assim como o autor, se desnudam, se mostram, numa exposição que nem sempre os livros convencionais revelam ou se propõem a revelar. A transparência é tal que Nepomuceno chega a mostrar aos leitores a estrutura de diretórios dos textos do livro dentro do seu disco rígido (no texto “Quanto menos clique melhor”)!

Esta transparência do processo criativo está presente na Fonte de Duchamp, e no trabalho dos artistas modernos do século XX, que refizeram a idéia de linguagens e formatos da arte. A produção contemporânea convive com a idéia de espectador ativo, cantada por John Lennon em Power to the people, e proclamada por artistas como John Cage, Nam June Paik, Lygia Clark, de que o papel criativo pertence tanto ao artista quanto ao público, de cuja interferência as obras não podem prescindir.

O espectador é parceiro do artista, do autor. Qualquer opinião que emita sobre um trabalho não é certa nem errada, cada ação crítica se multiplica em novas possibilidades de olhar e agir. E quando as tecnologias digitais se somam às técnicas de criação, o espectador se torna também usuário, a obra de arte e a interface se confundem. Numa obra de arte, como num produto utilitário contemporâneo, ou num livro como o de Nepomuceno, o usuário cria, atua, decide.

Embora tenha o formato de um livro convencional, Em busca do computador invisível (Crônicas sobre tecnologia) versão 1.0, obra contemporânea, é um livro-interface. Como um livro, é para ser lido e folheado. Como um programa, é para ser usado, navegado, respondido, consultado, multiplicado. A dupla funcionalidade desafia o leitor a avaliar o seu papel de receptor: enquanto navega pelas crônicas e lê os textos, também pode prover informações incorporáveis à obra e acabar virando também um pouco autor.

E Nepomuceno instiga a ação do leitor: já quando se apresenta, propõe uma enquete ao final, com fina ironia e uma ponta de curiosidade: “Você compraria ou daria para um amigo um livro com a coletânea dos artigos do Nepomuceno?” O bom-humor se mantém e outras pesquisas se sucedem. E o leitor, além de votar, pode também procurar um endereço citado para se aprofundar num assunto, ou mandar um email para Nepomuceno se quiser. Querendo ou não, precisa se manter atento, tomar decisões. Ou não. Mas neste caso tomar a decisão de não agir é também uma ação. Não tem saída, o leitor deste livro é também um usuário.

Apesar da proximidade dos assuntos com as tecnologias de ponta, a leitura deste livro é muito fácil. Ou melhor, a usabilidade deste programa é excelente. Nepomuceno escreve como se estivesse conversando pessoalmente com cada um de seus leitores, numa conversa que flui a partir de casos de infância, problemas e soluções ligados a dispositivos e programas, comentários sobre os noticiários, tendências do mercado. Fala de pessoas reais, as pessoas com quem convive, a família, os amigos, os colegas que encontra no dia-a-dia. Qualquer leitor poderia estar entre estes personagens, tão identificados estamos com as questões e respostas sobre as tecnologias digitais que nos cercam.

O formato fragmentado ajuda a navegação entre os textos. Pode-se pular de um assunto a outro, voltar ao início, ir direto para o final, reconstruir um encadeamento que não precisa seguir a ordem seqüencial das páginas. Pode-se daqui a um mês voltar a consultar as instruções sobre como se personaliza a barra de navegação do Internet Explorer.

A não-linearidade também permite o maior controle do leitor sobre os textos, na medida em que pode escolher a sua maneira de ler e até o que vai ler. E permite ao autor (Nepomuceno) reeditar o conjunto com mais facilidade, na medida em que pode fazer coletâneas de textos para públicos específicos, atualizar mais facilmente os textos defasados, retirar textos que não agradaram, incluir novos. A obra fica com um jeito de jogo, puzzle, em que as peças podem ser montadas e remontadas a cada edição.

E dentro dos textos, os parágrafos curtos, ajudam a leitura e a “conversa” com o texto, ou “a luta contra a impessoalidade da cidade grande, através do papo do recreio.” Este papo informal nos permite entender que as tecnologias digitais fazem parte do nosso dia-a-dia, estabelecem um aparato operacional que utilizamos para trabalhar ou realizar tarefas, mas também um aparato que condiciona os processos de pensamento relacionados a estas tarefas.

Além do mais, não somos mais as mesmas pessoas que começaram a usar PCs há 15, 20 anos. A tecnologia agora faz parte de nossa subjetividade, invade nossos sonhos, e muitas vezes a nossa vida analógica (quantas vezes não sentimos vontade de “desfazer” uma ação na vida real, do mesmo modo como desfazemos num programa de computador?).

Em busca do computador invisível (Crônicas sobre tecnologia) versão 1.0 é um livro que nos ajuda a pensar estas questões: a cultura digital, como esta nos transforma e como somos agentes destas transformações.

.........................................

Claudia Duarte _ Mestre em Tecnologia da Imagem pela Escola de Comunicação da UFRJ. É designer, formada pela PUC-Rio, com especialização em multimídia no Georgia Institute of Technology. Pós-graduada em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial pelo Crie, Coppe/UFRJ. Contato: clduarte@ism.com

 
           
           
           
 

    

 

| Colocar a coluna do Nepô em meu site |
| Deixar meu Currículo
|