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Comunidades virtuais e o futuro da Internet Internauta da primeira fornada, Carlos Nepomuceno já passou por todas as fases da Internet, do desconhecimento geral, da insustentável leveza da bolha e da atual concretização e massificação da web. Responsável por mais de 130 projetos envolvendo websites das mais diferentes empresas e instituições, conseguiu reunir na mesma lista de clientes a CUT-RJ e o Consulado Americano; O Greenpeace e a Associação Brasileira de Franchising. E a locadora Polytheama Vídeo em Copacabana aos sites da área de Gás da Intranet da Petrobras aos do IRB-Brasilre. Atualmente, é consultor permanente para projetos de Internet do Sebrae, Faperj, IBAM e Action Aid, colunista regular do Jornal da Tarde, e tem suas idéias replicadas em mais de vinte sites da rede, entre eles Globo.com e Portal do Estadão. Nepomuceno montou a Pontonet empresa de consultoria - que comemora em 2003 a barreira dos sete anos de existência. Eis um bate-bola, onde falamos dos caminhos da web. Para onde caminha a web-humanidade? Não resta dúvida que entramos 2003 com o aprofundamento ainda maior do fenômeno da massificação da web. Existe uma forte tendência de concentração da rede em alguns poucos sites, dos grandes portais, no mundo e no Brasil, tais como: Globo, UOL, Terra, Estadão, Folha, entre outros. Os usuários procuram conforto. Querem chegar em um lugar e encontrar tudo que necessitam. Repete-se no virtual a tendência dos shoppings center e supermercados. O conforto e a segurança contam mais que tudo. E isso pode ser conseguido, teoricamente, nesses grandes portais. Vivemos o grande mito da democratização da informação com a web, que abre perspectivas interessantes, mas a tendência atual, infelizmente, é a da concentração, no Brasil e no mundo. Existem movimentos que tentam quebrar esta lógica, como as páginas pessoais e de organizações não-governamentais, as listas de discussão, entre outras, mas que precisam estar muito mais unidas e pensadas como um projeto global, sob o risco de desaparecerem. Mas não temos hoje a explosão dos blogs? Temos e sempre tivemos. Os blogs são a versão 2.0 das páginas pessoais que existem na rede, desde seus primórdios. Eles apenas conseguiram criar novas ferramentas de publicação, que facilitaram a possibilidade das pessoas se expressarem - o que é um fenômeno maravilhoso. Os blogueiros, entretanto, superestimam demais o movimento, como se ele fosse algo novo - não é. Posso reunir um grupo de donos de páginas pessoais de primeira hora (por volta de 95, 96 e 97) responsáveis por iniciativas bem interessantes - muito antes do nome blog vir à tona. O problema na rede, na verdade, nunca foi o da publicação, que vem sendo cada vez mais facilitada, mas o da divulgação das páginas, que precisa ser reforçada, muitas vezes, pela mídia tradicional. Ou seja, em dois minutos você coloca uma página no ar, mas quem vai lá saber que ela existe? Mas não temos hoje ferramentas como o Google, que ajudam nesse processo? Sim, mas como ele funciona? É um algoritmo complexo que calcula quais são as páginas relevantes. Analisa quem linka quem. Ou seja, se sua página recebe links dos sites de todos seus amigos recebe alguns pontos, pois as páginas deles não têm tanta visita. Se ele, entretanto, recebe links na UOL, na Globo e no Terra ela começa a ter uma relevância maior e sobe na escala. Ou seja, repito, a Internet não vive o problema da publicação, nem da distribuição - os grandes problemas da imprensa alternativa das décadas passadas - mas agora vive a questão vital da divulgação. Somos todos cada vez mais agulhas em um palheiro que não pára de crescer. Mas será que os blogueiros querem aparecer ou apenas publicar sem compromisso? As duas coisas. Acho que a questão do ser humano na sociedade de massa é sair da invisibilidade e procurar o reconhecimento de sua individualidade por um determinado grupo de pessoas. Tendo a achar que os blogs servem bem para isso, mas ficam restritos a uma determinada tribo. A tendência é que eles acabem se organizando em anéis temáticos, em listas de discussão e procurem se aglutinar em um movimento coletivo para dar mais consistência e capacidade de divulgação. O que, na verdade, irá voltar para o ponto de partida de tudo: estar na web é lidar as novas comunidades virtuais, que se formam aos borbotões. Poderia dar exemplos? Eu gerencio o site ComoAchar o que deseja na Internet (www.prossiga.br/comoachar), do Programa Prossiga, há cinco anos. Temos uma média diária de duzentas visitas, somando uns seis mil visitantes no final do mês, bem focado para pesquisadores em Ciência e Tecnologia. Há quatro anos, resolvemos produzir um boletim mensal sobre as novidades na área de ferramentas de busca. Já temos hoje uma base de dados com mais de 22 mil assinantes, sendo 13 mil e-mails realmente válidos. Todo o mês fazemos enquetes com nossos leitores e procuramos identificar no que estamos acertando e errando. Na última, pedimos a avaliação do boletim - 83% dos leitores avaliaram, por exemplo, que a publicação melhorou. Ou seja, para nossos objetivos, conseguimos ampliar bastante o grau de interação e formamos uma comunidade cativa, que mobilizamos sempre que precisamos, como foi na avaliação da nova página que colocamos no ar. Ou, estimulamos sugestões de novos sites para o boletim. Além disso, criamos pequenas e simples ferramentas, como um livro de visitas, a indicação dos sites para os amigos e respondemos perguntas relativas às questões sobre buscas na rede na área de C&T, que, no conjunto, formam instrumentos poderosos de participação. Não é um modelo, pois temos limites na equipe, mas o conceito sempre é o da participação da comunidade em prol dela mesma. Menos importante que o número de visitas, é o fato de conseguirmos criar uma comunidade cativa e lidar com ela. Mas isso não faz parte da cultura implícita da rede? Não, nossa tendência é sempre trazermos o que conhecemos como bagagem. Os profissionais de informação estão acostumados a lidar com seus veículos como produtores puros de informação. Eu colho o dado e o publico. Assim é ensinado na Universidade. Na web, a lógica passa a ser outra. Eu cultivo uma comunidade, deixo que ela interaja, estimulo, e, nos resultados mais expressivos, eu dou destaque. É um processo de estímulo constante do grupo. Ou seja, coordenar um projeto na web não é ser um produtor de informação somente, mas também um animador constante de um grupo de pessoas interessado em determinado tema. Assim, o coordenador do site consegue multiplicar sua capacidade de ação por toda a comunidade, podendo ter informações que um coletivo produz e não apenas uma pessoa ou uma equipe pequena. Esse processo é mais eficaz contra a avalanche de informação que temos hoje em dia. Precisamos de um novo perfil e, obviamente, isso significa uma nova formação profissional.
Do ponto de vista comercial, a Amazon e todos os seus copiadores conseguem algo bem interessante. Você pesquisa um produto, compara com diversos outros, lê os comentários de outros consumidores. Ou seja, a comunidade virtual que compra na Amazon (www.amazon.com) agrega valor ao site com os seus comentários descomprometidos, o que forma um poderoso estímulo para que você volte sempre, interaja e decida a compra, mesmo que não seja on-line. Outro bom exemplo desse processo é o site de download da CNET (download.com.com), no qual se pode ler todos os comentários, escolher o software por número de vezes que é baixado ou por aceitação deles pelos internautas. Note bem, na verdade, é o mesmo conceito: a comunidade participa e você potencializa essas contribuições, publicando os dados relevantes - seja qualitativo, seja quantitativo - do próprio grupo, gerando mais visitantes e crescendo a mala direta. Em que projetos você está empenhado hoje no fortalecimento de comunidade virtual? Bom, estamos iniciando em março o Vortal (portal vertical) contra a pobreza da Actionaid, uma ONG internacional, sediada no Brasil. Eles nos deram recursos para começar do zero uma comunidade, na qual teremos a oportunidade de montar todas as ferramentas e a equipe para conduzir um projeto nesta linha de interação. Estamos concluindo também o planejamento estratégico de 2003/2004 do Sebrae-RJ, na área de Internet e Intranet, no qual definimos também diversas ferramentas, metodologias e cursos para que possamos ampliar esse intercâmbio na comunidade. Aos poucos, sinto que o nosso discurso vai ganhando sentido e tem uma repercussão maior em instituições que tentam organizar e articular a sociedade, como é o caso do Sebrae e da Actionaid. Então, a Internet seria o grande meio para o florescimento de comunidades virtuais? Com certeza, posso dizer, então, que os usuários quando vêm para a Internet conhecem a televisão, o jornal, o telefone, mas sabem que aqui podem gozar de outros privilégios. E vão deixar seu e-mail, sua opinião e querer fazer parte dos projetos que vão possibilitar algo diferente para eles. Onde possam se sentir menos invisíveis e parte integrante de um coletivo. Claro, que falo de determinado tipo de sites e de usuários, pois, aliado à interação, deve haver a facilidade de uso, a rapidez nos resultados, o acesso ao que realmente interessa. A web é o grande meio de interação do homem e os projetos precisam refletir esse potencial. Para isso, é necessário trabalhar com ferramentas e equipes criativas, que tenham o espírito da web, que permitam ao usuário exercer o direito pleno da interação. Por estes projetos coletivos, podemos vislumbrar a possibilidade de sites menores e coesos, que vão ajudar no processo de descentralização da rede e na sua tão almejada democracia. | |||||
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