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“O futuro da internet está na construção de inteligência coletiva”
Carlos Nepomuceno assistiu ao nascimento da internet e acompanhou de perto seus primeiros passos no Brasil. Foi um dos primeiros jornalistas a se especializar em informática e escreve sobre o tema desde 1983. Ao longo de duas décadas, viveu a fase da reserva de mercado, quando possuir um microcomputador moderno era quase impossível; viu a popularização dos PCs; assistiu ao crescimento e à explosão da bolha da internet; e acompanhou a eclosão do movimento pela inclusão digital. Nesta entrevista, ele aborda conceitos muito debatidos e pouco implementados no cotidiano da grande rede, discute o papel de professores e jornalistas, sugere um novo modelo de web e alerta para as grandes transformações que surgirão nos próximos anos.
Revista Nós na Escola,
Ano 3 • n0 32 • 2005
Texto: Marlúcio Luna (Editor de Conteúdo do Programa Século XXI)
A internet já se integrou ao cotidiano de muitas pessoas. Mas ainda há dúvidas quanto ao futuro da web...
Para falar do futuro, é preciso refletir sobre o passado. Às vezes, nem nos damos conta de que a internet tem só uma década de existência. Pelo menos como a conhecemos hoje, ela surgiu em 1994 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em dezembro de 1995. Representou uma revolução na comunicação, pois permitiu pela primeira vez a comunicação “de muitos para muitos”, como diz o pensador Pierre Lévy.
Você se refere à democratização da produção e do acesso à informação?
A muito mais que isso. Quebrou-se um paradigma. Antes, havia o veículo enviando a sua mensagem a um grupo imenso de receptores – era a comunicação de poucos para muitos. Não existia espaço para contestação. Com a internet, não só muitos puderam produzir informação para muitos, como se tornaram alvo de contestação pela audiência. O processo de comunicação ficou muito mais rico com a internet. Se eu crio um blog e publico algo polêmico, de antemão imagino que receberei críticas e elogios, que estarão nos comentários do blog. Meus leitores conhecerão os dois lados da moeda.
Esta situação não é regra, mas exceção. Os grandes portais de informação, por exemplo, mantêm a lógica da comunicação de poucos para muitos...
A internet criou uma nova dinâmica, uma nova forma de articulação do pensamento. Aí talvez esteja o grande erro de quem trabalha ou quer trabalhar com ela. Poucos perceberam que não se pode, por exemplo, criar um site usando a lógica da publicação impressa ou do audiovisual. O que vemos na web, na maioria das vezes, é a mera transposição de linguagens de um veículo para outro. É preciso haver um salto de qualidade.
De que forma?
As linguagens que precederam a internet trazem uma lógica linear e cartesiana que não se enquadra na lógica hipertextual da web. Neste ponto, a internet funciona de forma muito parecida com o nosso pensamento: um tema puxa outro, que desemboca em um terceiro, que segue por algo completamente diferente do tema inicial. Nós pensamos exatamente assim. O mesmo acontece com a internet.
Mas é preciso que haja algum tipo de sistematização. Caso contrário, a informação se dilui.
Esse é o ponto. Organizar não significa engessar em formatos semelhantes, por exemplo, ao da página de uma revista. É necessário aproveitar o caráter hipertextual da web e investir na produção conjunta de conteúdo.
Como?
Despindo-se de qualquer tipo de arrogância ou prepotência típica dos “donos do saber”. Não dá mais para simplesmente formular um conteúdo e colocá-lo na internet. É salutar que esse conteúdo seja manipulado, alterado, transformado pelos internautas, em um processo de troca, de complementação. A internet é um espaço de inteligência coletiva, construída cotidianamente. Essa idéia assusta alguns grupos profissionais específicos. Jornalistas e professores são duas categorias que servem como exemplo. A primeira porque teme perder a condição de canal de comunicação com a sociedade – o que é um temor infundado, pois as técnicas de comunicação continuarão a ser empregadas pelos jornalistas. Para os professores, a situação é ainda mais complexa, visto que os educadores temem ser substituídos pela internet ou pelos computadores. Já vimos esse filme quando surgiram o rádio, a televisão e o videocassete. As tecnologias se consolidaram e o professor manteve a sua função, que é essencial para a sociedade. Tanto os jornalistas quanto os professores precisam compreender que suas atividades passarão por transformações inerentes aos novos tempos. Ambos cumprirão o papel de mediadores. No primeiro caso, haverá mediação de informação. No segundo, a mediação será no campo da construção de saberes.
Essa é uma perspectiva de curto prazo?
Prever o ritmo de mudança é algo temerário. Mas acredito que a necessidade de transformação é imediata. Quem demorar a perceber isso vai perder o trem da história. O futuro da internet é a inteligência coletiva. Os grupos de pesquisa de ponta já trabalham nesse sentido. Um exemplo é a Coppe [Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia] da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Lá, estamos trabalhando na consolidação do Centro de Referência em Inteligência Coletiva (Crico). A idéia é gerar uma ferramenta baseada em softwares livres para que qualquer grupo, entidade ou pessoa possa criar sites capazes de implementar o conceito de inteligência coletiva.
Que efeitos práticos isso pode trazer?
Eu diria que há a possibilidade de radicalizar uma característica já presente na internet. Em que atividade econômica uma pessoa ou um pequeno grupo pode ameaçar uma grande corporação? Só na internet isso é possível. Pegue o exemplo da disputa entre Microsoft e Linux. Um desconhecido estudante de ciência da computação da Universidade de Helsinque, na Finlândia, decidiu enfrentar Bill Gates, criou um sistema operacional aberto e o colocou na internet. Ele foi aprimorado graças às contribuições de milhares de usuários ao redor do mundo. Eis um exemplo de inteligência coletiva que pôs em xeque a maior empresa do planeta. A web tem o poder de desencadear revoluções globais nas mais variadas áreas a partir de iniciativas individuais ou locais.
Mas, afinal, qual é o futuro da internet?
Ao contrário do que muita gente pensa, o futuro da web não está na tecnologia ou na convergência de mídias. Isso já é o presente. Limitações tecnológicas atuais serão superadas. Há menos de cinco anos, era impossível a transferência de arquivos com filmes de longa-metragem. Hoje, graças aos softwares decompactação,já é possível. Considero exageradas essas notícias alertando para o risco de a internet parar em 2010 por causa do excesso de tráfego de dados. Elas não levam em conta os avanços que ocorrerão até lá. O futuro da web passa pela percepção de todo o potencial que ela oferece. Hoje, é como ter uma Ferrari para dirigir no engarrafamento. A principal característica da Ferrari – a velocidade – não aparece e ela fica igual ao Fusca. A web não deve se limitar simplesmente a fornecer conteúdo. Ela precisa assumir o papel de ferramenta de elaboração coletiva de conteúdo. A internet vai se transformar em um espaço democrático de construção de inteligência coletiva, cujos efeitos poderão beneficiar a sociedade.
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