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Garantia Kung-fu
01/04/04

Tenho uma empresa de prestação de serviços em Internet há oito anos e, confesso, nunca recebi tantos pedidos de orçamento pela rede.

Antes que os amigos e parentes mandem e-mail pedindo dinheiro emprestado, aviso: quase 100% das consultas não geram negócio.

É uma espécie de voyeurismo comercial digital: olha-se muito, mas não se toca em nada.

No fundo, os possíveis interessados querem saber se o fornecedor da sua cidade está cobrando caro.

Todos querem trabalhar com alguém a poucos quilômetros de casa que tenha uma porta a ser chutada e uma mesa a esmurrar, se o serviço não for entregue.

É a chamada garantia Kung-Fu, com a seguinte filosofia: virtual é bom nos olhos dos outros.

Vejam o caso de um amigo.

Fechou, depois de uma árdua troca de e-mail, seu primeiro contrato pela rede de R$ 400,00 com uma empresa de outro Estado.

Eis a novela depois que enviou os arquivos pela Web do serviço contratado:

"Enviei o e-mail para cobrar e ele alegou que faltava um item. Esclareci que aquele ponto não estava previsto no acordo. Concordou e prometeu depositar. Passado alguns dias, relembrei e escreveu que restava outro item. Passei a me comunicar pelo telefone".

E prossegue:

"Para minha sorte, tinha indicado esse contratante para um amigo, que acabou fechando um projeto com ele. Ameacei denunciá-lo para o meu conhecido. Foi o único argumento convincente".

E conclui:

"Quase levei o meu primeiro calote, mesmo tendo tudo assinado! Com tudo isso, só depositou uma semana depois do que prometeu. Se eu não o tivesse indicado para alguém....sei não".

Vão aqui, então, algumas dicas para ambos os lados se defenderem.

Contratante - analise o site do fornecedor, veja os principais clientes, tempo de mercado, telefone, endereço. Ligue, peça referências, exija um acordo assinado bem detalhado, incluindo os serviços a serem entregues e as datas dos respectivos pagamentos. Em projetos maiores, exija referência.

Fornecedor - (tudo que foi dito acima e ainda) coloque no seu website a lista dos clientes, incluindo depoimentos. Consulte alguns deles para a possibilidade de oferecer referência. Exija sempre um sinal e etapas de pagamento a cada produto intermediário.

É bom também concluir o processo, através da entrega final do projeto (disquetes, papéis, CDs), via Sedex a cobrar. O executor envia e o contratante vai à agência dos Correios receber e pagar.

Nada impede, entretanto, que partes desse material final já tenha sido demonstrado na rede, parcialmente.

A origem de toda essa desconfiança é o descrédito geral na justiça brasileira, pois um contrato que deveria ser uma garantia, vale menos do que um papel do jogo do bicho colado em poste.

Ou seja, o comércio digital de serviços está em curto com a lenta Justiça verde e amarela analógica. Já é hora de oferecerem, no mínimo, uma base online de dados nacional com a lista das empresas que tenham problemas na justiça.

Enquanto isso, a maioria contrata na sua própria cidade, ou bairro, mesmo que seja duas ou três vezes mais caro.

Pergunta-se: quem perde com tudo isso?

 

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