Quantas vezes um jornalista se vê diante de uma tela em branco e se pergunta: quem, afinal, está do outro lado?
Acompanho colunistas culturais, políticos, de tecnologia, entre outros, e pressinto quando eles me atingem com um determinado texto.
“Fulano hoje está ótimo, você tem que ler”.
Ou quando ele se fecha, “Beltrano entrou hoje naquelas viagens”.
Na verdade, cada articulista tem um lado amplo, que atinge a maioria, e um oculto, uma preferência pessoal, que determinadas semanas aflora.
Todos perdoam, pois o que vale é o conjunto da obra, ou aquela lógica de arquibancada em estádio de futebol: ninguém faz três gols todo dia em uma partida.
Ainda mais em uma área de tecnologia, onde eu sei que o Zé Roberto tem um Mac e o Lucas um Ipaq da Compaq. E ambos dizem que gostam dos meus artigos, apesar de eu falar também e, detalhadamente, em alguns momentos, de PC e de Palms.
Assim, toda semana, aflora o meu velho dilema: como redigir para um público com equipamentos, níveis de conhecimento e necessidades diferentes sobre o mundo dos computadores?
Meu enfoque preponderante, com variantes, claro, é o que a editora do Caderno de Informática do Jornal da Tarde chama simplesmente de “comportamento”.
Preocupo-me menos com as máquinas e mais com a relação que estabelecemos com elas. E assim tento atingir mais gente.
Nesse contexto, sempre escrevo pensando em alguém. É um amigo que me comenta um problema, um primo, meu irmão, minha esposa, meu filho, os leitores que se comunicam por e-mail.
O público em geral, sem rosto, não existe - é uma miragem.
As pessoas e as angústias concretas diante da tecnologia compõem a realidade, que nos cerca. Um representa muitos e para este eu escrevo com carinho para atingir a todos.
Para os mais avançados, tenho uma outra tática para preservá-los próximos.
Eles não precisam de um Nepomuceno, pois quem já é cobra criada tem problemas tão específicos, que eu teria que produzir não uma coluna, mas um e-mail para cada um.
Essa turma atua como um verdadeiro pára-raio de dúvidas e questões de usuários neófitos. E, assim, muitos usam os meus escritos para ajudar às pessoas ao seu redor.
Forward: “Olha, eu acho que este texto vai te ajudar”.
De quando em quando, eu coloco uma dica para os mais entendidos, em uma frase, um parágrafo, um toque para esse pessoal também não se perder na poeira.
Nem sempre toda essa química funciona.
Há semanas que preciso ser muito detalhista, como falar dos filtros do Eudora ou das profundezas do Palm. São momentos que serei deletado sem ser lido por muita gente.
São licenças tecno-poéticas - para as quais peço a compreensão dos amigos.
Justifica-se como uma parte de um conjunto de uma obra, que cada colunista tem na cabeça. É uma forma, mesmo não sendo popular, de influenciar para que mais gente se interesse pelo Eudora, por exemplo.
Hoje, resolvi compartilhar esta coluna leve e reflexiva, uma conciliação tramada, depois de algumas semanas de mergulhos técnicos em praias pouco frequentadas para voltar a ser lido pelo Zé Roberto e o Lucas.
A eles, dedico o presente artigo.