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Não existe almoço grátis
(Artigos do Nepomuceno - 05/12/02)

Quem não viu, precisa ver o filme 174, de José Padilha, documentário sobre o seqüestro ocorrido no Rio de Janeiro em 2000, que terminou com a morte do seqüestrador e da refém.

Um dos depoimentos mais interessantes é o do sociólogo Luis Eduardo Soares sobre a invisibilidade dos marginalizados no Brasil. E a necessidade deles se tornarem visíveis para a sociedade, por bem ou por mal.

A mesma situação, com causas e conseqüências diferentes, ocorre com o cidadão moderno, atual sobrevivente das megacidades cada vez mais violentas.

Lembro-me de que, quando eu era garoto, há 30 anos, a única grade que existia era a da porta pantográfica dos elevadores. Hoje, vivemos em presídios.

Assim, o ser urbano tende a sair menos de casa, interferir menos na sua comunidade e se tornar mais anônimo.

A internet passa, assim, a ser o grande canal seguro para a troca e o conhecimento individual e coletivo, que vai da procura do príncipe ou da princesa encantada, até o compartilhamento de idéias e problemas.

Hoje, ainda, fortemente concentrada na classe média urbana.

Essa necessidade de ser reconhecido e existir para o mundo explica a explosão das páginas pessoais (blogs no meio) e dos grupos de discussão.

Ou seja, há uma procura pelo reconhecimento, ou melhor, a presença nos pequenos "planetas" que elegemos para aterrissar diariamente com nosso cordial "bom dia".

É a simbólica passagem da arroba desconhecida para um nome e sobrenome.

Em resumo, a Web é o primeiro meio de interação, no qual o internauta procura, principalmente, trocar e sair da posição telepassiva para a da e-interferência.

O problema, entretanto, é o custo. Estar online continua a ser um divertimento caro. Some o preço do computador, do telefone, dos provedores, da manutenção e reserve já uns trocados no futuro para o conteúdo.

Segundo pesquisa realizada pela Online Publishers Association e publicada, este semestre, no site Nua Internet Surveys cerca de 12,4 milhões de internautas nos EUA pagaram por conteúdo em 2002, comparado aos 5,3 milhões em 2001.

O estudo detectou ainda que 1,7 mil sites já estão cobrando por informações diferenciadas. Quem teve as maiores receitas foram Real, WSJ, Match, Yahoo! e Consumerreports. Mais informações em www.nua.ie/surveys .

Aumenta, portanto, a conscientização de que a cada novo serviço "gratuito" nos quais nos cadastramos, estamos, de fato, vendendo nossa privacidade.

Sem perceber, optamos por fazer parte do chamado mercado impessoal das malas diretas, justamente de onde queríamos fugir quando viemos para o virtual.

É um verdadeiro paradoxo! E haja spams!

No fundo, os spammers cobram a conta dos anos anteriores de conteúdo livre, nos quais nossos e-mails caíram literalmente na boca do povo - do vendedor de desentupidor de privadas ao do carro de último tipo.

Assim, existe a tendência futura de que incorporemos ao dia-a-dia os custos de estar online e aumentemos a disposição de pagar mais por eficiência, privacidade e individualidade.

Ou seja, prepare o bolso, pois é um fato real - agora no virtual - a ser digerido: não existe almoço grátis!

 
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