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Don Quixote criou um blog
(Artigos do Nepomuceno - 06/12/01)

Só se fala em blogs ultimamente. Os amigos criam, comentam e perguntam: você ainda não tem o seu?

Simbolizam um sonho, cada vez mais viável, do ser humano: para cada cidadão, um jornal.

E, neste turbilhão democrático, cabe perguntar: se cada internauta tiver um jornal, quem vai ter tempo de ler o do outro?

Saltamos da restrição da leitura da mídia impressa, pré-internet, à profusão de opções atuais. E arrisco dizer que, se todo mundo pudesse falar ao mesmo tempo na mesma sala, não teríamos uma conversa, mas uma grande barulheira.

A Web é quase isso.

Confesso que estou cada vez mais cético de que experiências isoladas e individuais consigam sobreviver ao longo do tempo. Amigos que criaram sites pessoais, que até ganharam prêmios, desistiram.

Uma coisa é um hobby, outra é uma roubada.

Pessoas, pequenas empresas, ONGs, sindicatos não conseguem manter um website vivo, chegam a uma conclusão cruel: para colocar algo simples no ar, basta um domingo, mas para mantê-lo com visitas...é necessário reservar algumas segundas, terças, quartas, quintas...

A Web, pela facilidade e baixo custo de publicação, aparentemente, é algo fácil de ir levando. Não é!

Ao se entrar ness aventura, descobrimos que temos diante de nós um parque de diversões, para o qual não se paga nada para entrar, mas os brinquedos lá dentro estão pela hora da morte.

O dispendioso é o tempo necessário para fazer o projeto acontecer e manter o padrão. Uma coisa é ter um blog online, outra é conseguir visitante. E se ninguém entra, desanima-se.

No dia que inventarem uma ferramenta, que separe as páginas que recebem manutenção regular, daquelas que estão paradas, ou mudam muito poucos ao longo dos anos, veremos que a Web dinâmica é muito menor do que se imagina.

São milhares de navios fantasmas sem rumo flutuam no ciberoceano.

Quanto mais avançamos no e-planeta, mais as pessoas tendem a se concentrar em menos e maiores portais à procura de qualidade, comodidade e confiabilidade.

O problema está no entendimento da nova mídia. A rede é um canal de interação, não apenas de comunicação. Para sermos profundos e duradouros, temos que saber criar projetos coletivos. E isso implica trabalhar em equipe, dentro e fora dos computadores, justamente nesse mundo em que a palavra de ordem é o indivídualismo.

O ciberespaço não veio ao mundo apenas para informar, mas é o ambiente mais apropriado para compartilhar.

Assim, a rede floresce quando cria e fortalece comunidades reais/virtuais, que diminuem a distância entre pessoas fisicamente separadas e aproximam ainda mais pessoas que estão geograficamente próximas, pois contam com o esforço natural de muitas mãos que se multiplicam em escala geométrica.

Ou seja, chegamos em plena época digital, a mesma conclusão que Cervantes há 500 anos: não adianta Don Quixote criar sozinho um blog com o Sancho Pança, pois só conseguirá, em um curto período de tempo, combater moinhos de vento.

Depois, irá para casa sonhar com a Dulcinéia - já que ninguém é de ferro - enquanto os mesmo gigantes que ele queria combater sorriem e prosperam.

 
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