Só se fala em blogs ultimamente. Os amigos criam, comentam e
perguntam: você ainda não tem o seu?
Simbolizam um sonho, cada vez mais viável, do ser humano: para cada
cidadão, um jornal.
E, neste turbilhão democrático, cabe perguntar: se cada internauta
tiver um jornal, quem vai ter tempo de ler o do outro?
Saltamos da restrição da leitura da mídia impressa, pré-internet, à
profusão de opções atuais. E arrisco dizer que, se todo mundo pudesse
falar ao mesmo tempo na mesma sala, não teríamos uma conversa, mas
uma grande barulheira.
A Web é quase isso.
Confesso que estou cada vez mais cético de que experiências isoladas
e individuais consigam sobreviver ao longo do tempo. Amigos que
criaram sites pessoais, que até ganharam prêmios, desistiram.
Uma coisa é um hobby, outra é uma roubada.
Pessoas, pequenas empresas, ONGs, sindicatos não conseguem manter um
website vivo, chegam a uma conclusão cruel: para colocar algo simples
no ar, basta um domingo, mas para mantê-lo com visitas...é necessário
reservar algumas segundas, terças, quartas, quintas...
A Web, pela facilidade e baixo custo de publicação, aparentemente, é
algo fácil de ir levando. Não é!
Ao se entrar ness aventura, descobrimos que temos diante de nós um
parque de diversões, para o qual não se paga nada para entrar, mas os
brinquedos lá dentro estão pela hora da morte.
O dispendioso é o tempo necessário para fazer o projeto acontecer e
manter o padrão. Uma coisa é ter um blog online, outra é conseguir
visitante. E se ninguém entra, desanima-se.
No dia que inventarem uma ferramenta, que separe as páginas que
recebem manutenção regular, daquelas que estão paradas, ou mudam
muito poucos ao longo dos anos, veremos que a Web dinâmica é muito
menor do que se imagina.
São milhares de navios fantasmas sem rumo flutuam no ciberoceano.
Quanto mais avançamos no e-planeta, mais as pessoas tendem a se
concentrar em menos e maiores portais à procura de qualidade,
comodidade e confiabilidade.
O problema está no entendimento da nova mídia. A rede é um canal de
interação, não apenas de comunicação. Para sermos profundos e
duradouros, temos que saber criar projetos coletivos. E isso implica
trabalhar em equipe, dentro e fora dos computadores, justamente nesse
mundo em que a palavra de ordem é o indivídualismo.
O ciberespaço não veio ao mundo apenas para informar, mas é o
ambiente mais apropriado para compartilhar.
Assim, a rede floresce quando cria e fortalece comunidades
reais/virtuais, que diminuem a distância entre pessoas fisicamente
separadas e aproximam ainda mais pessoas que estão geograficamente
próximas, pois contam com o esforço natural de muitas mãos que se
multiplicam em escala geométrica.
Ou seja, chegamos em plena época digital, a mesma conclusão que
Cervantes há 500 anos: não adianta Don Quixote criar sozinho um blog
com o Sancho Pança, pois só conseguirá, em um curto período de tempo,
combater moinhos de vento.
Depois, irá para casa sonhar com a Dulcinéia - já que ninguém é de
ferro - enquanto os mesmo gigantes que ele queria combater sorriem e
prosperam.