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O presente artigo trata dos seguintes assuntos:

- ambiente colaborativos
- ciberespaço
- ciência da informação
- conhecimento
- criação coletiva
- computação
- comunicação
- comunidades em rede
- doutorado
- ferramenta de busca
- Galileu
- Google
- hipertexto
- informação
- Internet
- Linux
- meio de comunicação
- muitos para muitos
- Pierre Lévy
- redes de relacionamento
- slashdot
- sociedade em rede
- tese
- Thomas Kuhn
- Web 1.0
- Web 2.0
- Wikipedia

 


 
 

Em busca do computador invisível

A ciência da informação resistirá à Internet ?
reflexões soltas de um aluno de doutorado

Artigo publicado originalmente no DataGrama Zero, http://www.dgz.org.br/ago07/F_I_com.htm
14/08/07

“As hipóteses são redes: só quem as lança colhe alguma coisa.” (Novalis).

Ao entrar no doutorado, acreditem, a minha tese tinha um objetivo claro e pouco ambicioso: estudar os ambientes colaborativos da Internet.

Nada mais. Ali, o que me encanta e inquieta é o caos controlado do Wikipedia, do Slashdot, da criação coletiva do Linux e de tantas outras comunidades em rede.

Como existir sem um pai, um irmão mais velho ou um chefe poderoso que a todos controla? É possível?

Ao tentar pensar sobre o problema, como um fio que vai puxando vários outros, quase um hipertexto sem fim, precisei subir um degrau: afinal, o que é a Internet, esse espaço mágico que habitamos há 15 anos que tantos nos dá e nos cobra?

Sim, concordo com Pierre Lévy que é o primeiro meio de comunicação do muito para muitos, das salas de Chat, das listas de discussão, dos ambientes colaborativos, agora batizados de redes de relacionamento, que se espalham nesse novo fenômeno batizado de Web 2.0.

Mas como explicar a nova Web 2.0 sem poder dizer exatamente o que foi a Web 1.0? Ou mesmo compreender, através de uma lógica simples ou complexa o surgimento da própria rede na sociedade? Como explicar algo sem começar pelo fio da meada?

Que lógica há por trás da rede que a tudo toma numa velocidade de Fórmula 1? Para, assim, por fim, explicar como os ambientes colaborativos estão se impondo e concluir a minha tese.

E aí surge o termo explosão da informação, ecoando por sobre os diferentes textos da nossa área. A Ciência da Informação surgiu para resolver o problema da explosão da informação do pós-guerra. Vivemos uma nova explosão do hipertexto.

Já entramos na explosão dos ambientes colaborativos.

Já que venho do lado pragmático dos profissionais da informação, percebi uma fenômeno comum ao longo dos meses recentes de contato com alguns clientes e amigos já no mundo Web 2.0: que batizei de “Ponto G”, o ponto de gargalo.

É um determinado momento em que um sistema de informação determinado, começava a ficar tão incontrolável e inútil, que a empresa precisa passar para uma nova etapa disponível, no caso a Web 2.0.

Isso ficou mais claro quando escutei:


“Chegou uma hora que eu não conseguia mais controlar os comentários dos usuários e deixei de lado, liberando qualquer um a postar o que quisesse, seja o que Deus quiser!”, cliente 1.

“Há muitos textos sobrando e tantos, que precisei criar um novo site, no qual o usuário coloca direto sem passar por mim para dar vazão ao processo”, cliente 2.
 

(O mesmo fenômeno, aliás, quando as empresas se sentiram impelidas a ingressar na Internet para divulgar e, depois, vender produtos.)

Então, pensei: hummm, existe um determinado momento chave, no qual determinado sistema implode? E perguntei para Aldo Barreto, meu orientador, tomando um café expresso descafeínado no Rio Sul, se tínhamos algo parecido na literatura.

Prontamente me apresentou dois conceitos importantes, já presentes em textos escritos por ele, para o trabalho, vindo de fontes inusitadas:

Nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança de escala, passa por isso sem modificar sua forma ou conformação, (Galileu, há mais de 350 anos).

E ainda:

O conhecimento, potencialmente armazenado em estoques de informação, acumula-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo colocando-se filtro de entrada para limitar qualitativamente o crescimento destes estoques, a coisa toda tenderá a ruir em pedaços, devido ao seu próprio peso, a menos que se modifique as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo físico, (D'Arcy Thompson,1961).

Uma luz se acendeu.

Existe, então, determinado momento na história das empresas e na sociedade que determinado sistema de informação explode? E, assim sendo, a explosão (e a própria Internet) não seria então uma anomalia, conforme Kuhn, que ocorre de tempos em tempos, mas uma regra, que guia todos os sistemas, inclusive os de informação?

Sendo assim, a explosão informacional do pós-guerra, que estimulou o surgimento da Ciência da Informação não foi apenas mais uma, entre tantas outras antes do surgimento da mesma? Não seria, então, a história da Informação um fator chave para entender a Internet, de certa forma, como fez Lévy ao analisar o ciberespaço, indo às origens dos meios de comunicação?

E que, a partir dessa lógica, não podemos criar uma regra que explique as mudanças dos sistemas da informação ao longo da história contando-o a partir das diversas explosões, mudando de forma, como sugere Galileu e Thompson para entender melhor a Internet e a Web 2.0 e, finalmente, os ambientes colaborativos?

E recorrendo a proposta de Lévy, que procurou na história da comunicação uma explicação da Internet:

(Do oral ao escrito;
Do escrito ao livro;
Do livro aos meios de comunicação;
E destes para a Internet.)

Não poderíamos recontar a história da informação, através das explosões?

Do silêncio – a incapacidade total de se informar e ser informado;
Aos grunhidos e gestos – que explodem por limites de expressão;
A fala – que implode a memória;
E desta para a escrita, que implode os papiros soltos e deságua nos livros, que nos leva aos meios de comunicação de massa e destes para a Internet com seu hipertexto?


Não seria, assim, então, a web 2.0 a implosão do hipertexto, que pela incapacidade de ser gerenciado, através do Altavista e similares, precisou criar um novo ambiente, liderado pelo Google?

E não é então o Google, a primeira ferramenta de busca a utilizar o muito para muitos, proposto por Lévy, que inaugura a nova fase da rede de um novo tipo de sistema de informação baseado na colaboração das pessoas, auto-gerido, não verticalizado?

E não entramos agora, então, no ambiente do qual o ser humano sai da posição passiva na ponta do sistema de informação para seu epicentro, como é o caso do Wikipedia?

E será que esses novos ambientes colaborativos não tendem a atrair os setores mais dinâmicos da sociedade, por uma questão de sobrevivência, tomando-a de assalto? Não seria essa uma nova regra: toda vez que um novo sistema de informação mais dinâmico aparece na sociedade, da palavra à Web 2.0, gradualmente toma de assalto, alterando gradualmente todos os outros?

Se tudo isso puder ser alinhavado, surge, então, as questões que me fazem perguntar se a Ciência da Informação vai resistir à Internet, na atual nova versão e nas próximas:

1) se os sistemas de informação estão baseados em documentos e a relevância dos estoques dependem basicamente da capacidade dos profissionais da informação em ofertá-los classificá-los e torná-los da melhor forma possível recuperáveis;

2) Se a qualidades dos novos estoques vão depender das pessoas que dele fazem parte, saindo da idéia de estoque de documentos para comunidade de pessoas;

3) se os novos sistemas informacionais, geralmente mais dinâmicos, tendem a ser hegemônicos na sociedade, atingindo todos os demais, alterando-os e influenciando-os;

4) se os novos ambientes que nos aponta o futuro são organizados basicamente pelos ex-usuários, agora colaboradores.

De onde tiraremos os subsídios da Ciência da Informação que está estruturada para gerenciar documentos e estoques imateriais e agora terá que lidar com seres vivos?

Não saímos, então, de um sistema de informação simples, como os quais temos ferramentas para lidar, para um novo bem mais complexo, já que teremos o gerenciamento de pessoas?

Thomas Kuhn garante que as Ciências de tempos em tempos esbarram em anomalias, que precisam ser compreendidas para virar regras.

Acredito que a Internet é uma anomalia que não atinge apenas a Ciência da Informação, talvez essa a Comunicação e a Computação sintam o impacto primeiro, mas todas as outras, principalmente, as sociais e humanas, terão que mais dia ou menos dia a lidar com o que Castells definiu como a nova Sociedade em Rede.

E, neste momento, cabem as perguntas:

A Ciência da Informação resistirá a Internet, ou se transmutará como acredita Galileu? Caso sim, de que maneira? Conseguirá sobreviver sozinha ou precisaremos de uma nova Ciência, como a nova Ciência Web ou da Rede, na qual todas as áreas estarão mais próximas?

Sem ainda nenhuma conclusão, inquieto e (confesso) assustado com os caminhos que acabei trilhando na minha tese, deixo a tarefa para os próximos anos do doutorado.

Sugestões e críticas são bem vindas.


Referências Bibliográficas

BARRETO, A. A. . OS Agregados de informação: memória, esquecimento e estoques de informação,  Datagramazero, Rio de Janeiro, v. 01, n. 03, p. 05-11, 2000.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Perspectiva, 1999.

LÉVY, Pierre. A Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

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