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A e-intolerância existe?
(Jornal da Tarde - 15/03/01)

No milênio do celular e da fibra óptica, vemos os Talibãs destruindo estátuas milenares de Buda no Afeganistão. É o tema da intolerância que bate na nossa tela, circula na imprensa e aparece no artigo de Stephen Kanitz, "Gente como a Gente", publicado na Veja da semana passada. Ele diz: "Virtudes como tolerância, respeito, curiosidade intelectual não são sequer mais discutidas, muito menos veneradas. É cada um por si e seus amigos." E polemiza: "Com a internet, a situação piorou, e muito. (...) Jamais iremos criar uma sociedade de união universal como pregam os social-internautas. Somente aumentaremos a intolerância, a falta de compreensão, compaixão e humildade local."

Será que a internet provoca mais intolerância entre os seres humanos? Peço tolerância para ler quatro parágrafos.

Tolerância 1: As tecnologias potencializam sentimentos existentes: não os determinam. O telefone serve tanto para salvar uma vida como para chantagear a família de um seqüestrado. O celular é usado para tirar um soterrado de um terremoto ou organizar um assalto a banco. É o ser humano que define como usar a tecnologia e não o contrário.

Tolerância 2: Pesquisas mostram que as pessoas deixam de ver tevê para estarem mais na internet, como antes diminuíram o uso do rádio e ainda antes do bate-papo em torno da lareira. Todos esses meios convivem entre si e não eliminam o outro, mas deixam marcas. Assim, o ciberespaço é o meio de comunicação (e interação) pós-tevê.

Tolerância 3: A televisão é por natureza unidirecional: um emissor, um receptor; permite um número fixo de canais; e serve apenas para, no máximo, três utilidades solitárias ou de pequenos grupos: assistir a programas, ver filmes de vídeo e jogar videogame. A internet permite que qualquer um possa ser emissor e receptor. Os canais são ilimitados e o seu uso se multiplica a cada dia. A internet é mais abrangente como meio de comunicação que todos os seus antecessores juntos.

Tolerância final: Defender o conceito da tecnologia como algo acima dos homens é tirar de nós a responsabilidade de poder usá-la e modificá-la para os nossos propósitos. Essa visão, ao contrário de combater o egoísmo que existe na sociedade, deixa para o outro manipular a técnica, muitas vezes os mais intolerantes.

Quem quer diminuir a intolerância deve difundir para o vizinho (mesmo que seja chato) que em vez de ele assistir apenas à televisão, poderia estar na internet se divertindo e também - em rede - debatendo a destruição da praça do seu bairro para a construção de um novo shopping ou o fim das estátuas de Buda por uns fanáticos no Afeganistão, ampliando assim a e-tolerância. Agradeço ao tolerante amigo virtual Wilson Azevedo por propor o tema.

 
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