No milênio do celular e da fibra óptica, vemos os Talibãs destruindo
estátuas milenares de Buda no Afeganistão. É o tema da intolerância que
bate na nossa tela, circula na imprensa e aparece no artigo de Stephen
Kanitz, "Gente como a Gente", publicado na Veja da semana passada.
Ele diz: "Virtudes como tolerância, respeito, curiosidade intelectual não
são sequer mais discutidas, muito menos veneradas. É cada um por si e seus
amigos." E polemiza: "Com a internet, a situação piorou, e muito. (...)
Jamais iremos criar uma sociedade de união universal como pregam os
social-internautas. Somente aumentaremos a intolerância, a falta de
compreensão, compaixão e humildade local."
Será que a internet provoca mais intolerância entre os seres humanos? Peço
tolerância para ler quatro parágrafos.
Tolerância 1: As tecnologias potencializam sentimentos existentes: não os
determinam. O telefone serve tanto para salvar uma vida como para
chantagear a família de um seqüestrado. O celular é usado para tirar um
soterrado de um terremoto ou organizar um assalto a banco. É o ser humano
que define como usar a tecnologia e não o contrário.
Tolerância 2: Pesquisas mostram que as pessoas deixam de ver tevê para
estarem mais na internet, como antes diminuíram o uso do rádio e ainda
antes do bate-papo em torno da lareira. Todos esses meios convivem entre si
e não eliminam o outro, mas deixam marcas. Assim, o ciberespaço é o meio de
comunicação (e interação) pós-tevê.
Tolerância 3: A televisão é por natureza unidirecional: um emissor, um
receptor; permite um número fixo de canais; e serve apenas para, no máximo,
três utilidades solitárias ou de pequenos grupos: assistir a programas, ver
filmes de vídeo e jogar videogame. A internet permite que qualquer um possa
ser emissor e receptor. Os canais são ilimitados e o seu uso se multiplica
a cada dia. A internet é mais abrangente como meio de comunicação que todos
os seus antecessores juntos.
Tolerância final: Defender o conceito da tecnologia como algo acima dos
homens é tirar de nós a responsabilidade de poder usá-la e modificá-la para
os nossos propósitos. Essa visão, ao contrário de combater o egoísmo que
existe na sociedade, deixa para o outro manipular a técnica, muitas vezes
os mais intolerantes.
Quem quer diminuir a intolerância deve difundir para o vizinho (mesmo que
seja chato) que em vez de ele assistir apenas à televisão, poderia estar na
internet se divertindo e também - em rede - debatendo a destruição da praça
do seu bairro para a construção de um novo shopping ou o fim das estátuas
de Buda por uns fanáticos no Afeganistão, ampliando assim a e-tolerância.
Agradeço ao tolerante amigo virtual Wilson Azevedo por propor o tema.