No dia da eleição, na seção de um amigo meu, um velhinho levou uma hora
para votar. Ninguém podia ajudar e lá ficou ele tentando se entender com a
urna eletrônica.
Confesso que até eu me enrolei para escolher o senador e apelei, pela
primeira vez, para a tecla CORRIGE.
Na minha opinião, houve um erro de conceito no sistema da urna. O layout
das telas foi criado com uma lógica inicial e mudou no meio do caminho.
Vejamos: começamos escolhendo os deputados. A primeira tela mostrava os
espaços para os números que, depois de digitados, são seguidos de foto,
nome e número já preenchidos. Teclando-se confirma, vinha uma nova tela.
A mesma lógica foi utilizada até chegar ao voto do senador e, sem
necessidade, resolveram juntar ali, na mesma tela, os dois candidatos ao
cargo. E, pior, o segundo só aparecia depois que concluíamos o primeiro.
Uma tela para cada escolha, até o final, seria mais adequado.
Multiplique isso por milhões de eleitores, muitas escolhas para cada um
deles, poucas urnas e a dificuldade natural das pessoas para mexer em
máquinas. O resultado foi o que se viu: gente ainda votando e a apuração
avançando em vários Estados.
Para que isso não se repita, teremos de criar uma metodologia eleitoral
meses antes do pleito, com testes simulados, para uma avaliação dos
problemas de uso. Eleição é coisa séria.
As urnas definitivas devem ficar disponíveis em locais públicos, como
shoppings, cinemas, metrôs, rodoviárias, já com as referências dos
candidatos para que os mais inseguros se habituem com elas.
E cada seção deveria ter uma para treino, para quem quisesse experimentar
antes de ir lá para dentro, sem atrasar a fila.
O Tribunal Superior Eleitoral (www.tse.gov.br) até colocou no ar uma
votação simulada com candidatos fictícios. A simulação online talvez tenha
sido mais útil do que o programa DivNet, um software desenvolvido para
totalizar o pleito. Usei a versão para XP e não funcionou. Li no site que
só aceitam sistemas operacionais que executem Java Virtual Machine, que o
XP original, sem atualização, não reconhece:
www.tse.embratel.net.br/divnet2002/index.htm(link inválido) .
Um programa com vida útil de seis horas no máximo não compensou o esforço,
mesmo que funcionasse amplamente.
Por fim, o presidente da seção da minha esposa proibiu que meu filho de 14
anos, que já vota na próxima, entrasse com ela. "São ordens superiores." A
entrada de crianças não só deveria ser liberada, como encorajada para que
todos levassem seus rebentos para se habituarem com a urna eletrônica.
Se a seção estivesse cheia, eles apenas olhariam; vazia, até poderiam
apertar as teclas, supervisionados pelos pais.
Cidadania? CONFIRMA.