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O objetivo da Internet 2.0 é gerar inteligência coletiva
19/04/06
Web 2.0 sem tecnicismos ou vídeos passando: há um novo papel para os profissionais de rede do futuro. Estamos na passagem do modelo emissor-receptor para o animador-comunidade.
Por Carlos Nepomuceno.
No início de março, o jornal O Globo publicou o artigo "A vez da Web 2.0", decretando a nova fase da internet.
Diz o artigo:
" O termo, que tem entre seus criadores um outro Tim (O'Reilly), surgiu em outubro de 2004, após a realização da conferência Web 2.0, em São Francisco, EUA, organizada pelas empresas MediaLive e O'Reilly Media. Durante um brainstorm, nasceu a idéia de inaugurar uma fase da Web que permitisse mais liberdade ao usuário, que deixa de ser passivo e passa a ter, também, a responsabilidade de produzir, "mixar" e classificar o conteúdo. A idéia vingou e, agora, começam a nascer os primeiros sites "colaborativos" em Web 2.0."
Na verdade, se juntarmos dez defensores do termo, cada um vai apresentar um ponto de vista distinto, de questões conceituais a técnicas.
Mas existe um sentimento no ar, a intuição, de que uma nova fase começa. Projetos e mais projetos, como Wikipedia, Orkut, a construção coletiva do Linux, a consolidação da Amazon...
Para a qual, a sociedade (incluindo empresas) não compreendeu ainda a grande oportunidade.
Dizemos, então, que a web é um novo meio, fortemente voltado para a interação e que para nos aproveitarmos dele precisamos mudar paradigmas, se quisermos tirar proveito do que oferece.
Não é à toa que de todos os lados do planeta os e-atores sentem a necessidade de criar um marco, corte, barreira, decretar o fim de algo e início de outro.
A rede sem maquiagem
A expectativa, então, é de que consigamos superar a primeira etapa no uso das redes, na qual se inclui também as intranets e extranets.
Neste primeiro momento, tentamos desesperadamente, ao longo dos últimos dez anos, encaixar a web no modelo clássico e conhecido de comunicação.
Basicamente, o emissor divulgando informações e tantos outros recebendo, como nos jornais, rádios e televisões.
Este modelo clássico verticalizado, aos poucos, foi dando lugar a um novo ambiente, no qual usuários, desenvolvedores, pesquisadores, empresários perceberam intuitivamente algo de novo no horizonte do monitor.
Enfim, o modelo clássico da comunicação vertical podia ser alterado!
Começaram, assim, experiências em forma de sites, sistemas e negócios, que buscavam potencializar o que de novo existia.
Entre eles:
Os navegadores - que permitiam a leitura de textos de forma anárquica, através de hiperlinks, e não mais na ordem do livro tradicional, página a página;
As listas de discussão e grupos eletrônicos - que possibilitaram o primeiro modelo de comunicação colaborativa, sem a figura do emissorúnico, com troca de mensagens a distância de muitos para muitos;
O correio eletrônico - que permitiu a troca de textos, de forma
barata e a longa distância para múltiplos destinatários;
Os mensageiros eletrônicos - que expandiram o conceito da
comunicação virtual para a presença constante e troca de pequenas
mensagens entre amigos e colegas de trabalho ao longo do dia.
Assistimos impressionados a evolução permanente de projetos, que
foram aos poucos permitindo cada vez mais a participação e a
colaboração dos usuários no processo de geração de informação, não
mais verticalizada.
Este fenômeno horizontal de troca de informação de usuários com
usuários permitiu a criação e difusão quase instantânea e
globalizada de novos produtos e a criação de projetos e empresas,
nunca antes possível no modelo clássico.
A saber:
O MP3 e todos seus sucessores na área de vídeo - que possibilita
nova forma de comercialização e troca de bens culturais;
O Linux e o conceito de software livre e gratuito - que quebra
monopólios e abre a nova forma de distribuição de programas;
A Amazon - que plantou a nova idéia de consumo, no qual o usuário
faz parte integrante do processo de tomada de decisão por todos os
outros;
Na verdade, nessa verdadeira Tsunami informacional e comunicacional
moderna, tentamos construir pranchas e novas formas de surfar.
E haja tombo!
Quando falamos agora da web 2.0, na verdade, queremos delimitar a
barreira da fase da intuição dos últimos 15 anos para assumir a nova
etapa consciente, baseado em novo paradigma:
A Internet é um novo meio de comunicação, com forte tendência à
interação;
Ou, se quisermos ser mais precisos: a Internet é o primeiro meio de
interação a distância de muitos para muitos, criado pelo homem, com
forte potencial de comunicação horizontal, a critério e a gosto do
freguês.
(Entendam sempre Internet como sinônimo de ambiente de rede).
Assim, como proposta filosófica devemos passar a limpo experimentos
e erros de adaptação do modelo de comunicação clássico para este
novo ambiente e avisar aos desavisados: a praia é outra!
Estamos partindo do princípio que os agentes impulsionadores desse
processo estarão trabalhando na potencialização máxima do novo
ambiente, tendo a colaboração, a interação e a força do coletivo
como motor para dar respostas a essa nova sociedade virtual, nesse
novo dínamo:
Quanto mais rede, mais rápido. Quanto mais rápido, mais rede.
A inteligência coletiva
Diante desta nova visão, de um novo meio de interação humana, temos
e teremos cada vez mais impacto no conhecimento, implicando repensar
a sua gestão, organização e recuperação.
E indagamos: que tipo de conhecimento será esse que permitirá ao
ser humano acompanhar este novo cenário em eterna mudança na
velocidade das comunidades virtuais?
Talvez ninguém da nossa época possa ainda dar resposta precisa,
pois os últimos 15 anos demonstraram que a rede vive de revoluções,
de saltos e trancos; E não das revisões, passos e carinhos.
A rede é impacto e não planejamento!
E, mais do que tudo, da aderência intuitiva das massas, no que
podemos chamar de e-intuição, em direção a cada vez mais querer a
comunicação horizontal, como forma de libertação dos modelos
clássicos.
Nada pensado: "Vou entrar no Orkut, pois ele é web 2.0". Mas algo
do tipo: "Que legal essa nova forma de se relacionar!"
A história do homem mostra sempre a necessidade umbilical de ir
adiante.
É preciso, então, assumirmos nossos papéis de cegos e nossas
humildes bengalas para podermos nos posicionar no tiroteio.
Somos hoje contemporâneos de uma revolução similar a de Gutemberg,
quando inventou a prensa.
Aqueles muitos que não sabiam que aquele experimento com a intenção
explícita de ganhar dinheiro, permitiu a reforma protestante, as
revoluções americana, francesa e industrial, apenas com a difusão em
larga escala da informação e do conhecimento, através dos livros e
depois dos jornais.
Assim, nos cabe trabalhar com a mesma intuição dos elefantes, que
subiram nas montanhas mais altas da Indonésia para escapar do
maremoto.
Nosso instinto nos diz que precisamos estar inicialmente abertos a:
- Reunir pessoas que já têm experiência e idéias neste campo;
- Novas ferramentas para demonstrar, na prática, o novo conceito;
- E reciclar profissionais para tirá-los da influência do modelo
clássico emissor-público para o de público-público, passando para a
nova missão: animar e administrar conflitos e encontros. E organizar
para rápida recuperação a memória coletiva acumulada.
Esta tese vale para toda todo o planeta, inclusive o brasileiro,
que se caracteriza com grande potencial criativo, comunicativo e
facilidade de lidar com mudanças, ainda desperdiçado.
Assim, para lidar com este novo meio de interação, devemos imaginar
um novo papel para os profissionais de rede do futuro.
O novo modelo é uma nova forma cultural de relacionamento, da qual
estamos nos habituando lentamente, com enorme resistência.
Por isto, os projetos que potencializem a web 2.0 não são fáceis,
pois vão contra a arraigada cultura que temos de difundir e nos
informar e trocar conhecimento no modelo anterior.
Projetos da web 2.0 para gerar inteligência coletiva são,
basicamente, de mudanças culturais, utilizando novas ferramentas
interativas.
Portanto, como mostra a história, não são todos atores sociais que
adotam, querem e necessitam das novidades comunicacionais e
informacionais.
Hoje, irão abraçar e levantar a bandeira da interação e do
compartilhamento do saber de conhecimento de forma horizontal
justamente aqueles que estão oprimidos, impedidos, impotentes diante
de determinada realidade que modelos clássicos de comunicação não
permitem superá-la.
São estes atores: algumas pessoas, algumas empresas e alguns países
que já estão prontos para mudar e precisam apenas da ferramenta. E
já a estão usando, aqui e ali.
Assim, quanto mais mudança alguém necessita, mais uma novidade como
esta pode ser uma tábua de salvação.
Quanto mais os canais de comunicação e geração de conhecimento
clássicos criam barreiras, mais vontade terá de adotar projetos na
web 2.0 de Inteligência Coletiva.
Neste balaio pós-moderno, podemos colocar empresas inovadoras,
usuários insatisfeitos, países sem espaço no mundo globalizado.
Quanto mais sede de mudança, mais web 2.0. Quanto menos, mais
resistência.
Ou seja: quanto mais estável for uma situação de determinado grupo
e quanto mais vantagens têm com a geração do conhecimento e
comunicação clássica anterior, mais ele tenderá a rejeitar projetos
deste tipo.
É o caso da indústria fonográfica, por exemplo.
E ainda: quanto mais um grupo se utiliza do ambiente colaborativo
da web, mais ele se distanciará daqueles que não o fazem, valendo
esta dinâmica para pessoas, empresas, instituições e países.
Assim, quando falamos em Internet ou web 2.0 não podemos nos perder
em tecnicismos, ou em imagens piscando, ou vídeos passando.
O que realmente fará a diferença para o ser humano com estas novas
ferramentas, metodologias e profissionais será a nossa capacidade de
interagir no mundo novo, não mais para ser informado, mais para
informar, descobrindo tribos e produzindo com elas e nelas o
conhecimento necessário para enfrentar o novo cenário veloz.
Assim, as decisões tomadas, a experiência adquirida e a memória do
grupo preservada com rápida recuperação para os que estão e ainda
virão - tudo isso, podemos chamar de Inteligência Coletiva, o
objetivo principal da nova web 2.0.
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