E me perguntou:
-- E os presentes para os internautas? O que você me recomenda? São tantos os pedidos!
Apresentei os sonhos de consumo do pessoal aqui da rua:
Uma webcam para ver os parentes e amigos que moram distante;
Um gravador de CD para brincar com MP3 e fazer backup;
Um handheld para organizar a vida;
O ViaVoice da IBM para ditar os textos sem tocar no teclado e ouvir depois;
Uma câmera digital para tirar fotos sem filme, centenas a cada semana;
Memória, muita memória, para o micro suportar os programas cada vez mais exigentes;
E um disco rígido maior que armazene tudo isso.
Mas sinto, nas entrelinhas, que o bom velhinho está preocupado.
-- Eu não agüento mais receber spams, meu filho. Minha caixa postal está abarrotada de mensagens indesejadas, hoaxes, correntes. Desse jeito, o Natal do ano que vem não sai.
Explico que o aumento contínuo dos spams já é um dos principais problemas na rede. A produtividade dos usuários em casa e nas empresas tem caído. O tempo perdido está cada vez maior para separar o que é lixo do que é útil. Seja para criar novos filtros, ou para excluir o que chega.
Já é também uma dor de cabeça para o acesso às mensagens nos celulares ou de outros handhelds nos países que utilizam com mais intensidade esta tecnologia. Em alguns casos, inviabilizam o uso.
Explico que temos que adotar a mesma visão que predomina hoje no mundo do combate à droga: tratamento distinto para o traficante e o viciado.
Uma legislação forte contra os que vendem malas diretas não autorizadas e negociam com a privacidade alheia. E um posterior trabalho educativo com multas menores para quem usa essas listas.
Esse negócio escuso se multiplicou em 2001 no Brasil e no mundo, em função da crise, com a seguinte lógica: a bolha estourou, o dinheiro se evaporou, a crise do país aumentou, os negócios escassearam. Então, vamos tentar de tudo para aumentar as vendas pela Web.
Que tal mandar um milhão de e-mails? Veja aí quem tem uma boa mala direta para vender.
Proliferou-se assim um negócio em cima do desespero alheio, aquele conceito esquisito que já ouvi por aí: "na crise, uns choram e outros vendem lenço de papel".
Pois bem, na falta de punição, multiplicaram-se os distribuidores de lenço, com o meu e-mail, o seu e o do Papai Noel, sem consentimento, como mercadoria.
Profissionais liberais, pequenas e médias empresas são os principais cúmplices nesse processo, pois compram as relações e apostam que vão gerar negócios.
Acredito até que consigam a audiência de um público novato, mas os mais experientes - que são os que mais consomem pela Web - passam a filtrar e os deletam imediatamente. Assim, nunca mais eles vão aparecer naquela caixa postal, a não ser que mudem de endereço eletrônico.
Ou seja, é um tiro quase sempre na água.
Assim, eu sugeri a ele: que tal um grande presente para todos nós em 2002? Uma boa legislação contra comércio ilegal de e-mails no nosso sapatinho virtual?
E ele respondeu categórico:
Ho, ho, ho pode deixar, que eu vou mexer os meus pauzinhos.
Desliguei o micro e fui dormir satisfeito.
Ainda bem que o Papai Noel existe!