A continuar assim, vai chegar o dia em que iremos ao médico para cuidar do pé e ele vai dizer que só trata do esquerdo, já do direito tem um outro que entende.
É um mal do mundo moderno.
Sinto isso na pele.
Quando sento para conversar, por tendência, lá estou eu no papo_chato.com.br, a falar sobre internet.
Meu primeiro impulso passa a ser procurar um grupo de ciberentendedores na rede e fora dela.
E pergunto: será que viveremos em tribos isoladas em plena era do conhecimento global?
Esta é uma das principais preocupações dos críticos às novas comunidades virtuais por áreas de interesse, que florescem na Net.
Aprofunda-se muito um tema, mas, se não tiver atenção devida, pode-se perder uma visão geral.
Pergunto então ao leitor: existe alguma fórmula de se estar por dentro do que DEVEMOS saber da nossa profissão# e ainda acompanhar aquilo que DESEJAMOS por prazer e NECESSITAMOS como cidadãos planetários?
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Talvez esse seja um dos desafios cotidianos do homem no século 21. Exemplos?
Vejam os americanos. Eles formam o povo mais especialista do planeta. Interessam-se apenas do que vai do fim da fronteira do México a do início da do Canadá. Nos outros dois lados, existe o mar e depois...tem o que mesmo? O Havaí?
Onde fica o Afeganistão? Na África? A capital é qual mesmo?
A imprensa americana é tradicionalmente conhecida pelo pouco espaço de cobertura aos fatos internacionais.
Esse modelo é reforçado pela velocidade das mudanças e a falta cada vez maior de tempo do homem urbano. Cada um acaba por se concentrar no seu umbigo - na área de trabalho, bairro, cidade, país.
É uma defesa natural, que gera uma alienação, não pela falta, mas pelo excesso de informação desarticulada.
Um grande paradoxo: temos o mundo nos dedos, mas não temos tempo ou interesse nele.
Um autor pertintente a esse debate é Neil Postman e o seu livro "Tecnopólio - a rendição da cultura à tecnologia", da editora Nobel.
Ele defende a volta nas escolas do estudo generalista e dos autores clássicos, incluindo a história das religiões, que formaram o mundo moderno - algo que faz cada vez mais sentido nesse momento de guerras santas.
Destaca a importância do conhecimento do passado e cita Cícero:
"Continuar ignorante das coisas que aconteceram antes de você nascer é continuar sendo criança."
Segue:
"Cada professor deve ser um professor de história. Ensinar biologia sem também ensinar o que sabíamos no passado, ou pensávamos saber, é reduzir o conhecimento a mero produto de consumo".
E conclui:
"Precisamos de estudantes que compreendam as relações entre nossas técnicas e nossos mundos social e psíquico, de modo que possam iniciar conversas informadas sobre aonde a tecnologia nos está levando e como".
E eu acrescento: são tantas as novidades nas nossas áreas específicas, que só existe uma fórmula para sobreviver - a capacidade de contextualizar.
Sem esta alternativa, caímos no risco de nos tornar o médico especialista no pé direito: saberemos realmente quase exatamente tudo sobre profunda e terrivelmente nada.