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O Especialista do pé direito
(Artigos do Nepomuceno - 22/11/01)

A continuar assim, vai chegar o dia em que iremos ao médico para cuidar do pé e ele vai dizer que só trata do esquerdo, já do direito tem um outro que entende.

É um mal do mundo moderno.

Sinto isso na pele.

Quando sento para conversar, por tendência, lá estou eu no papo_chato.com.br, a falar sobre internet.

Meu primeiro impulso passa a ser procurar um grupo de ciberentendedores na rede e fora dela.

E pergunto: será que viveremos em tribos isoladas em plena era do conhecimento global?

Esta é uma das principais preocupações dos críticos às novas comunidades virtuais por áreas de interesse, que florescem na Net.

Aprofunda-se muito um tema, mas, se não tiver atenção devida, pode-se perder uma visão geral.

Pergunto então ao leitor: existe alguma fórmula de se estar por dentro do que DEVEMOS saber da nossa profissão# e ainda acompanhar aquilo que DESEJAMOS por prazer e NECESSITAMOS como cidadãos planetários?

Comente no fórum que abri em: br.groups.yahoo.com/group/nepo_temas/message/2

Talvez esse seja um dos desafios cotidianos do homem no século 21. Exemplos?

Vejam os americanos. Eles formam o povo mais especialista do planeta. Interessam-se apenas do que vai do fim da fronteira do México a do início da do Canadá. Nos outros dois lados, existe o mar e depois...tem o que mesmo? O Havaí?

Onde fica o Afeganistão? Na África? A capital é qual mesmo?

A imprensa americana é tradicionalmente conhecida pelo pouco espaço de cobertura aos fatos internacionais.

Esse modelo é reforçado pela velocidade das mudanças e a falta cada vez maior de tempo do homem urbano. Cada um acaba por se concentrar no seu umbigo - na área de trabalho, bairro, cidade, país.

É uma defesa natural, que gera uma alienação, não pela falta, mas pelo excesso de informação desarticulada.

Um grande paradoxo: temos o mundo nos dedos, mas não temos tempo ou interesse nele.

Um autor pertintente a esse debate é Neil Postman e o seu livro "Tecnopólio - a rendição da cultura à tecnologia", da editora Nobel.

Ele defende a volta nas escolas do estudo generalista e dos autores clássicos, incluindo a história das religiões, que formaram o mundo moderno - algo que faz cada vez mais sentido nesse momento de guerras santas.

Destaca a importância do conhecimento do passado e cita Cícero:

"Continuar ignorante das coisas que aconteceram antes de você nascer é continuar sendo criança."

Segue:

"Cada professor deve ser um professor de história. Ensinar biologia sem também ensinar o que sabíamos no passado, ou pensávamos saber, é reduzir o conhecimento a mero produto de consumo".

E conclui:

"Precisamos de estudantes que compreendam as relações entre nossas técnicas e nossos mundos social e psíquico, de modo que possam iniciar conversas informadas sobre aonde a tecnologia nos está levando e como".

E eu acrescento: são tantas as novidades nas nossas áreas específicas, que só existe uma fórmula para sobreviver - a capacidade de contextualizar.

Sem esta alternativa, caímos no risco de nos tornar o médico especialista no pé direito: saberemos realmente quase exatamente tudo sobre profunda e terrivelmente nada.

 
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