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A arte zen dos tombos de bicicleta
(Jornal da Tarde - 26/04/01)

Quando eu tinha oito anos, os meninos do prédio se dividiam entre os que já tinham ou não aprendido a andar de bicicleta. Uma das mães da vizinhança - com uma prole de sete filhos - se tornou a instrutora oficial. Levávamos, em média, dois dias e alguns tombos para nos tornarmos crianças pedalantes e sair gritando pelas ruas: "Sai da frente, pessoal!".

Pagávamos esse preço para sentir a gostosa sensação do vento na cara e tudo que uma bike podia oferecer aos sonhos de quem ainda é uma criança.

Toda tecnologia - mesmo aquela que usa duas rodas - traz consigo um custo para não cairmos do selim. É a velha regra: quem quer pegar onda, leva caldo.

Leio o desabafo natural de um colega jornalista, Zeca Martins, no artigo "Adeus, e-mail, adeus!", publicado no site Pressweb, na semana passada, no qual ele corajosamente abdica do correio eletrônico na vida privada:

"Erradiquei de vez o e-mail. Profissionalmente, só faço uso dele em condições estritas e absolutamente necessárias." Veja a íntegra do artigo em www.pressweb.com.br/NewsClip/NewsShow.asp?Noticia=1588&Editoria=7. (link inválido)

Ele explica: "Alguns amigos, entusiastas da informática, argumentaram que, por haver uma série de dispositivos de proteção aos e-mails indesejados, não seria necessário que eu radicalizasse. Mas eu descobri que seria necessário perder um tempo enorme tentando aprender como fazer as devidas configurações (tenho coisas mais importantes para cuidar)".

Passamos da não existência completa do computador pessoal para a dependência total dessas maquinetas em apenas uma geração.

Precisamos ter uma "oficina" de confiança para levarmos o nosso carro (computador) para consertar as grandes panes; somos obrigados a lidar com todas as pichações, depredações e invasões à nossa privacidade (vírus e spams); e somos escravizados pelo eterno aprendizado e pela atualização de velhos e novos programas.

Na verdade, a sociedade colocou máquinas entre nós, as pessoas que nos cercam e a informação que consumimos. É a luta entre a grande independência versus o carnê tecnológico - pago durante todos os dias pelo resto de nossas vidas. Assim também foi com o automóvel: a troca de óleo, de pneu e o sistemático reabastecer de gasolina.

"Na verdade, a motocicleta a ser ajustada é você mesmo. A máquina que parece ser externa, e a pessoa, que parece ser interna, não são coisas separadas", profetizava Robert M. Pirsig no instigante livro Zen e Arte da Manutenção das Motocicletas. Veja em www.verbo21.com.br/arquivo/2ltx2.htm.

Se preferir o texto completo em inglês:

www.aoe.vt.edu/~ciochett/lit/zen.html.

O desabafo do jornalista tem a minha solidariedade. Mas, agora, infelizmente, para sobreviver nesse novo mundo é necessário ter paciência e disposição.

Somos inapelavelmente seres cibernéticos. Sem computador, internet e e-mail estaremos cada vez mais como os cavaleiros da Idade Média e sem cavalo:

indefesos e perdidos.

Assim, pedalar é preciso e as quedas são inevitáveis! Há que se desenvolver a arte zen dos tombos de bicicleta.

 
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