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A rede virtual dos engarrafados
27/04/06
Se existe algo que paulista entende é engarrafamento.
Assim, nada mais natural que partisse deles a rede virtual dos
engarrafados.
A iniciativa é da Rádio Eldorado, da capital paulista, que
incorporou informações sobre trânsito enviada pelos ouvintes, via
celular, à sua programação.
A qualquer minuto entra alguém "diretamente do volante" para
contribuir muitas vezes não só sobre informações sobre
congestionamentos, mas sobre a causa, sugerindo mudanças em horário
de realização de obras, tempo de semáforo, etc.
Ali, temos no coração do Brasil um exemplo atual, vivo e popular
(fora da web) da nova comunicação horizontal do muitos para muitos,
gerando inteligência coletiva, que pode servir de modelo para outras
iniciativas na Internet e fora dela.
Vejamos os ingredientes necessários que explicam, justificam,
reforçam e intrigam nessa experiência, que são universais a qualquer
projeto de comunicação horizontal:
As causas que fazem com que este tipo de rede se forme:
Do cenário geral:
Excesso de informação e falta de tempo para digestão. Doença do
tempo moderno, o que faz com que haja uma completa impossibilidade
da rádio em acompanhar todos os engarrafamentos que ocorrem a cada
minuto em São Paulo. É o mesmo fenômeno com a multiplicação dos
websites, livros, pesquisas relevantes para tomar decisões na nossa
vida.
Do ponto de vista do cliente:
Multiplicação dos olhos. Interesse da comunidade sobre como saber,
evitar e sair dos engarrafamentos. Sabendo que cada um, ou uma rádio
tradicional, não consegue ser suficientemente ágil para cobrir todos
os locais, no tempo necessário, nada melhor do que o próprio
engarrafado tomar a dianteira. O problema que fica para depois: como
interagir apenas com os que estão próximos do meu caminho?
Do ponto de vista da empresa promotora:
Procura de novas formas de interação com o público para criar um
diferencial competitivo frente à concorrência. Oportunidade de
negócio, usando a rede de usuários, que trocam informações e geram
dados originais, ágeis e úteis do interesse do público, como faz a
Amazon, que permite comentários bons ou ruins dos visitantes sobre
os produtos;
As conseqüências que são geradas depois que uma rede muitos-para-
muitos se forma:
Do cenário geral:
Uma nova forma de comunicação. Redes como esta da Rádio Eldorado se
multiplicarão dentro e fora da web, envolvendo som, fotos e vídeos,
já que cada cidadão será (e muitos já são) uma micro-equipe-de-reportagem-ambulante circulando por aí com seus celulares com voz e
câmeras - carentes de interação. Ali, qualquer um é repórter, com a
ampliação por milhares da capacidade de prospecção do mar diário de
novidades. É o resultado da entrada de uma nova tecnologia, que
permite a ampliação dos emissores, como são os computadores em rede
e agora os celulares, reforçando o potencial dos grupos de interesse.
Do ponto de vista do cliente:
Aumento do status social do participante ao ser útil para a
comunidade. Além do benefício direto para todos, cada um visualiza e
usufrui de um reconhecimento social, o mesmo fenômeno já visto no
desenvolvimento das comunidades virtuais em rede, o que reforça a
força do voluntariado, vide Linux, MP3, Wikipedia. Resta saber, é
algo para sempre, ou cíclico?
Do ponto de vista da empresa promotora:
Mudança do perfil do profissional de comunicação. Com a entrada em
cena de um ávido batalhão de repórteres voluntários, pois notem bem
a mudança: o ouvinte não entra no ar para opinar, como até já é de
costume, mas para principalmente informar. A rede muda aos poucos o
perfil dos veículos de comunicação, que diminuem profissionais na
prospecção e apuração e passam a gerenciar a recepção e filtragem das ligações. Passam assim de geradores de informações para
administrador de comunidades de usuários voluntários;
Questões para o futuro, enquanto estamos engarrafados:
Se todas as rádios adotam o modelo ouvinte-ouvinte qual será o
diferencial entre elas? Será daqueles que conseguir gerir melhor a
comunidade?
Passada a novidade, os usuários exigirão contra-partidas para
participar? O voluntariado romântico dará lugar ao mercantilismo
interesseiro? Este é um fato sempre natural? Há formas de manter o
voluntariado inicial?
Como focar as comunidades de usuários por engarrafamentos de
interesse? Naqueles que realmente me atrapalham? Rádios web
regionalizadas? Comunidades de celulares como rádios-amadores por área de circulação?
Digam-me, ando curioso.
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