Não sei se a idade está chegando, mas nas férias uma das minhas
terapias preferidas foi lavar o carro. Não, não foi só aquela
passadinha de pano molhado ou um esguicho de água da mangueira do
jardim.
Foram algumas horas com um aspirador de pó, a limpar pacientemente
cada cantinho.
Na verdade, nós, seres urbanos, que perdemos tantas horas em
engarrafamentos, não queremos mais parar para nada.
Exigimos o melhor resultado, pelo menor esforço. E, cada vez mais, na
velocidade das teclas.
Ou seja, o carro, o computador, a cidade, na nossa fantasia, sempre
vão funcionar - e não vão transbordar - por obra e graça do destino.
Rezemos!
Converso com uma amiga de longa data que me confessa
entristecida: "Perdi um romance inteiro que escrevia! Deu um pau no
HD! Que faço agora?".
O outro: "Pois justamente na hora em que eu mais precisava do PC, ele
congelou!". Ou ainda: "No momento de entregar a tese, peguei um vírus
e foi tudo para o espaço".
Pode parecer incrível, mas os micros adoram "aprontar" no meio da
semana, justamente às quartas-feiras!
Confesso que, por temperamento, sempre fui uma pessoa avessa à
manutenção. Aquela atividade chatinha de reservar uma parte do nosso
precioso tempo produtivo e criativo para evitar problemas imaginários.
Mas mudei.
Tiro geralmente o final da tarde da sexta-feira para tomar algumas
medidas preventivas, tais como: salvar os dados principais, organizar
as pastas, deletar o que não preciso, atualizar programas
(principalmente o antivírus) e gravar os arquivos dos meus sites para
o disco rígido.
Uma vez por mês, desfragmentar a máquina, limpar o mouse e o gabinete
por dentro. E, de ano em ano, formatar tudo e começar do zero, com o
software de restauração automática (Quick Restore), que veio no meu
Compaq.
Arrumo todo o escritório, jogo fora os papéis, esvazio a lata de
lixo, passo um pano na mesa e preparo tudo para a semana seguinte.
Entro no sábado de alma e equipamentos "lavados".
Nem sempre consigo ser tão metódico, mas com a sequência, mesmo com
algumas escapadelas, consigo evitar alguns problemas sérios,
justamente naquele momento crítico, no qual preciso dele trabalhando
100% redondinho.
A grande diferença foi encarar a conservação como algo prazeroso.
Fazê-la uma atividade criativa - eis a mágica!
Procuro, assim, a cada semana, aprimorar a rotina: pesquisar novas
ferramentas, avaliar se realmente preciso de todos os dados que estou
a salvar, analisar quais as listas de discussão ou boletim online,
que já não quero mais assinar.
Sob essa ótica, observo nossa cidade - depois de um mês distante. E,
na verdade, os grandes problemas, tais como enchentes, o surto de
dengue, a poluição dos rios e lagoas, o lixo urbano, entre outros,
não se resolvem na emergência.
É necessário adotar um trabalho continuado de manutenção criativa e
envolver os cidadãos nesse processo.
Nada se resolve sem isso. Mas, infelizmente, esse esforço silencioso
e planejado não elege ninguém.
O que fazemos, com essa nossa formação cada vez mais imediatista, é
dar o "boot" quando tudo congela, xingar todo mundo e colocar todo o
problema na pobre máquina.