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De alma e micro lavados
(Artigos do Nepomuceno - 28/02/02)

Não sei se a idade está chegando, mas nas férias uma das minhas terapias preferidas foi lavar o carro. Não, não foi só aquela passadinha de pano molhado ou um esguicho de água da mangueira do jardim.

Foram algumas horas com um aspirador de pó, a limpar pacientemente cada cantinho.

Na verdade, nós, seres urbanos, que perdemos tantas horas em engarrafamentos, não queremos mais parar para nada.

Exigimos o melhor resultado, pelo menor esforço. E, cada vez mais, na velocidade das teclas.

Ou seja, o carro, o computador, a cidade, na nossa fantasia, sempre vão funcionar - e não vão transbordar - por obra e graça do destino.

Rezemos!

Converso com uma amiga de longa data que me confessa entristecida: "Perdi um romance inteiro que escrevia! Deu um pau no HD! Que faço agora?".

O outro: "Pois justamente na hora em que eu mais precisava do PC, ele congelou!". Ou ainda: "No momento de entregar a tese, peguei um vírus e foi tudo para o espaço".

Pode parecer incrível, mas os micros adoram "aprontar" no meio da semana, justamente às quartas-feiras!

Confesso que, por temperamento, sempre fui uma pessoa avessa à manutenção. Aquela atividade chatinha de reservar uma parte do nosso precioso tempo produtivo e criativo para evitar problemas imaginários.

Mas mudei.

Tiro geralmente o final da tarde da sexta-feira para tomar algumas medidas preventivas, tais como: salvar os dados principais, organizar as pastas, deletar o que não preciso, atualizar programas (principalmente o antivírus) e gravar os arquivos dos meus sites para o disco rígido.

Uma vez por mês, desfragmentar a máquina, limpar o mouse e o gabinete por dentro. E, de ano em ano, formatar tudo e começar do zero, com o software de restauração automática (Quick Restore), que veio no meu Compaq.

Arrumo todo o escritório, jogo fora os papéis, esvazio a lata de lixo, passo um pano na mesa e preparo tudo para a semana seguinte.

Entro no sábado de alma e equipamentos "lavados".

Nem sempre consigo ser tão metódico, mas com a sequência, mesmo com algumas escapadelas, consigo evitar alguns problemas sérios, justamente naquele momento crítico, no qual preciso dele trabalhando 100% redondinho.

A grande diferença foi encarar a conservação como algo prazeroso. Fazê-la uma atividade criativa - eis a mágica!

Procuro, assim, a cada semana, aprimorar a rotina: pesquisar novas ferramentas, avaliar se realmente preciso de todos os dados que estou a salvar, analisar quais as listas de discussão ou boletim online, que já não quero mais assinar.

Sob essa ótica, observo nossa cidade - depois de um mês distante. E, na verdade, os grandes problemas, tais como enchentes, o surto de dengue, a poluição dos rios e lagoas, o lixo urbano, entre outros, não se resolvem na emergência.

É necessário adotar um trabalho continuado de manutenção criativa e envolver os cidadãos nesse processo.

Nada se resolve sem isso. Mas, infelizmente, esse esforço silencioso e planejado não elege ninguém.

O que fazemos, com essa nossa formação cada vez mais imediatista, é dar o "boot" quando tudo congela, xingar todo mundo e colocar todo o problema na pobre máquina.

 
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